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O Tempo - MG 24/09/2008
Ricardo Ballarine
Músicas que viram histórias para ler
Livros virtuais. Mojo Books disponibiliza para download textos criados a partir de composições conhecidas
"Uma vez eu ouvi uma historinha. Eu acho que era chinesa... Sobre um cara que colhia morangos na beira de um precipício. De repente, ele se descuidou e caiu. Caiu com um morango na boca. Ele estava preparado para morrer e, mesmo assim... Pra distrair um pouco... Ele se concentrou em como o morango era gostoso. É. Ele não tinha nenhum campo de morango por perto."
O trecho acima pertence às duas primeiras páginas da HQ "Strawberry Fields Forever", inspirada na música dos Beatles lançada em 1967 no álbum "Magical Mystery Tour". Assim como a composição de Lennon e McCartney, obras como "Construção", de Chico Buarque, "Back to Black", de Amy Winehouse, e "The Ramones", da banda homônima, também possuem sua versão literária. A Mojo Books, editora exclusivamente virtual, tem como mote "Se música fosse literatura, que história contaria?".
Criada em 2006 por Ricardo Giasseti e Danilo Corci, a MB lança e-books (livros eletrônicos) baseados em obras musicais. Idéia que surgiu quando Giasseti e Corci pensaram em remontar a Toward the Cathedral, banda que tocava em porões de São Paulo nos anos 90 e criava composições baseadas em autores como Kafka, Joyce e Poe. O projeto foi descartado para dar lugar à editora. Os volumes são publicados no site da editora e ficam disponíveis para download.
O leitor precisa apenas preencher um cadastro para baixar o livro, em formato PDF. Assim como um livro físico, os mojo books saem como uma "tiragem", uma espécie de número limitado de downloads - em média, 5.000, contra 3.000 dos livros impressos. "Se vamos lançar um Beatles, uma Pitty, calculamos uma tiragem maior. Obviamente, há muitos mais arquivos rodando por aí, sendo encaminhados por e-mail", diz Giasseti. Os números de downloads podem chegar a 40 mil - a média é de 8.000 transferências de arquivo. Já foram lançaram 85 livros, 32 singles (baseados em uma canção) e três comix (HQs). Artistas e gêneros dos mais diversos deram vazão à inspiração de escritores, a maioria novos autores que submete suas criações à editora.
Nomes conhecidos se misturam a autores novatos, como Gastão Moreira, Vange Leonel, Simone Campos, Andréa del Fuego, Luca Argel e George Farwell. De nome inspirado da palavra em bantu, língua falada no centro-sul da África, que significa amuleto especial, a MB é um braço de uma empresa de publicidade e produção de conteúdo e que mantém financeiramente a editora. "A idéia é criar e sedimentar o mercado de e-books através da Mojo Books, mas com um modelo de negócio que não dependa da compra por parte do usuário para sobreviver. Não é algo simples de ser implementado, mas é o nosso objetivo de médio prazo", diz Giasseti.
O lançamento do Kindle, o leitor de livros digitais da Amazon, o Plastic Logic e a proposta do Google de digitalizar títulos e colocar o conteúdo disponível na rede levam o cenário literário para o caminho virtual. "A tendência é que os livros migrem para o digital assim como a música migrou do vinil para o CD e para dentro do computador como MP3. Claro que há livros que ainda serão publicados em papel, como livros de arte e outros. Não é catastrofismo, mas as coisas vão mudar um pouco nos próximos anos", diz o editor da Mojo.
Por isso, a idéia de levar o conteúdo da MB para uma gráfica e imprimir algumas centenas de exemplares não passa pela cabeça dos editores - "os livros serão sempre digitais porque foram projetados e editados para isso". Mas não impede a busca de novas plataformas para o conteúdo digital. O celular é a nova barreira, já vencida no Japão. Os livros escritos para o aparelho se tornaram febre entre os japoneses - cinco dos dez títulos mais vendidos foram criados para o celular. "Os singles já são um dos modelos que criamos pensando em leitura em celular. Estamos negociando com operadoras e portais de conteúdo mobile para disponibilizar esse conteúdo para muito breve", diz Giasseti.
Livros virtuais
Editores também lançaram seus mojo books
Ricardo Ballarine
Especial para O TEMPO
Os livros enviados à Mojo Books passam pelo mesmo caminho de uma editora tradicional. São selecionados, editados e revisados para então ganharem a publicação. No site da MB, há um pacote de regras que o autor deve seguir, como a quantidade de toques e a exigência ficcional. “Nós montamos o projeto com base em pesquisas de institutos nacionais e estrangeiros sobre os hábitos de leitura na internet. O resultado foi uma leitura fácil, rápida, que compreende desde o estilo de escrita até o tamanho da fonte de visualização e o formato do arquivo a ser baixado. Tudo para facilitar e atrair ao máximo mais leitores”, diz Ricardo Giasseti, um dos editores da MB.
Os direitos autorais permanecem com os autores, que cedem apenas o direito de uso por dez anos. “Enquanto não vendemos os livros, os autores também não têm royalties a receber. Em coleções para clientes que compram conteúdo e disponibilizam para seu público, temos contratos diferentes, em que o autor recebe normalmente.”
Nessa forma de relação, em que a internet dita as regras, a MB pretende ampliar sua produção. As capas dos livros, que levam a assinatura de Delfin, diretor de arte do projeto, e do estúdio Base-V, também poderão ser criadas pela comunidade do site em breve. “Essa é uma das premissas da Mojo e do ambiente 2.0 que criamos: os usuários têm o poder de produzir o que vamos publicar.”
Usuário que é eclético e jovem, reflexo da plataforma onde vive, segundo Giasseti. O site passa pelas ondas da rede, como as comunidades e os fóruns criados no Orkut. “No começo deste ano, tivemos uma invasão adolescente. Eles descobriram o site e formaram comunidades e grupos de discussão na rede”, diz Giasseti, referindo-se à forma de divulgação via e-mail. “Com a Mojo, esperamos atrair os amantes da música para uma maneira nova de ler.”
Um jeito que não se prende a gêneros, “tanto literários como musicais”. “Consumidores ávidos” das duas artes, os editores preferem acreditar em “histórias e canções”. “Ficamos felizes quando recebemos propostas menos comuns, como a do Pablo Melgar, que fez Johnny Cash e contou uma história da Segunda Guerra”, diz Giasseti – o livro em questão foi baseado em “American 4 – The Man Comes Around”, quarto trabalho de uma série de cinco que o cantor norte-americano criou com releituras.
Os editores também lançaram seus mojo books. Giasseti escreveu “Technique”, do New Order, e o single da música “White Riot”, do The Clash, “uma de minhas bandas favoritas”. Na fila de espera dos comix, está seu roteiro de “Homem Primata”, do Titãs. O parceiro Danilo Corci escreveu “Black Celebration”, do Depeche Mode, e o single de “Sympathy for the Devil”, do Rolling Stones.
Links
http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdEdicao=1061&IdCanal=4&IdSubCanal=&IdNoticia=91276&IdTipoNoticia=1
Cadastrada em: 27/10/2008
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