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Gazeta Mercantil
18/05/2009
Gazeta Mercantil
A literatura ganhou asas e voou
Exposição no Sesc Pinheiros discute prosas, versos, blogs.

 
Logo na entrada, a boca projetada em uma grande tela avisa: “Bem-vindo a tudo: o acesso a tudo, o excesso de tudo”.

E é justamente isso o que está exposto na mostra “Blooks — Tribos e Letras na Rede”, em cartaz no Sesc Pinheiros: um pequeno
— e já imenso — recorte das infinitas informações disponíveis no universo da internet. O nome dá uma dica sobre o material armazenado dentro da sala escura, cheia de telas, mouses, música, projetores e alto-falantes. A palavra blook significa: 1. Gênero surgido na internet que se utiliza da formatação dos blogs para publicar obra literária ou artística. 2. Textos de um blog impressos em formato de livro. 3. Gíria nos cassinos norte-americanos para a carta Curinga. Ou, para simplificar, a junção das palavras blog e book.

“A principal proposta da exposição é a de fomentar o debate sobre a criação e o consumo de literatura na internet”, conta a historiadora Heloísa Buarque de Hollanda, curadora da mostra. “Um assunto que ainda enfrenta muita resistência quanto à consistência destas formas de práticas literárias”.

A navegação pelo universo da web e da literatura começa antes mesmo de se deparar com a imagem da “grande boca”. No segundo
andar do Sesc Pinheiros, onde está a “Blooks”, ficam os espaços “Internet Livre”, com dezenas de computadores com acesso livre à rede, os livros e publicações da “Sala de Leitura” e a “CDteca”, que, especialmente para a mostra, trocou a música por discos de contos e romances — entre eles “Contos Negreiros”, de Marcelino Freire, “O Alienista”, de Machado de Assis, e “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’ Água, de Jorge Amado — com o objetivo de complementar a discussão proposta pela a exposição, que é mostrar a literatura nas diferentes mídias.

Nas paredes negras que abrigam a “Blooks”, frases, palavras e trechos de contos e poemas, alguns escritos ao contrário para
imprimir “o desejo de reflexo, de espelho, que é uma das magias da navegação e da leitura na internet”, explica Heloísa. No centro,
projeções de grafites — “onde também podemos observar a tendência cada vez mais narrativa dessa arte, com a presença de letras em sua composição” —, uma sala de vidro com caixas de som reproduzindo podcasts (arquivos digitais em áudio) e telas interativas.

Nestas telas, as três opções para começar a navegar: “não prosa”, “não poesia” e “HQ”, englobam um leque gigantesco de trechos
de poemas, contos, microcontos, crônicas, histórias em quadrinhos e romances tirados de centenas de b l og s . Para selecioná-
los, Heloísa contou com a ajuda dos poetas Bruna Beber e Omar Salomão, e do escritor Marcelino Freire.

“Fiz isso porque achei que, na minha idade, talvez eu fosse ter uma leitura limitada e incorreta da vida intelectual e criativa da
web”, justifica a historiadora, nascida em 1939. “O que significa que eu mesma não acreditava muito que essa literatura pudesse
ter o nível de qualidade daquela impressa em livros. A grande surpresa foi essa seleção ter desmentido meus temores e, por que não,
preconceitos?”.

Mesmo deixando um pouco a desejar, principalmente com relação à interatividade e à qualidade sonora do material em áudio,
“Blooks” tem o mérito de ser a primeira grande exposição que tenta desvendar de forma explícita o universo literário na internet.
Além disso, a programação paralela de debates e oficinas trazem à tona justamente estes “temores e preconceitos” citados por Heloísa.

Entre os temas, “Hiperlíngua: Transformações da Palavra”, que terá a presença de Vicente Gosciola, Andre Vallias e Danilo Corci e debaterá a língua escrita em tempos de internet. “A Primeira Pessoa na Literatura (digital)”, com Tony Monti, Fabrício Carpinejar e Marcelino Freire discutindo a proliferação do “eu” na rede. E “Microconto pelo Microblog”, que explorará as possibilidades
criativas e literárias de ferramentas como o Twitter (espécie de miniblog), com Andréa Del Fuego. Todas as mesas contarão com a mediação do jornalista e escritor Xico Sá.

Durante a pesquisa para a exposição, uma das percepções de Heloísa foi a de que, ao contrário do que muitos imaginam, os jovens estão escrevendo e lendo como nunca. Segundo a antologia “Blablablogue — crônicas e confissões” (que será lançada pela Editora Terracota), organizada por Nelson de Oliveira, existem hoje impressionantes 140 milhões de blogues e cerca de 120 mil sendo criados diariamente (1,4 por segundo).

“Num primeiro momento, o blog era usado principalmente como um diário”, observa Marcelino Freire (criador do www.eraodito.
blogspot.com). “Hoje, isso continua, mas existe algo muito além. Os blogs apresentam críticas de cinema, análises políticas, contos e muito mais. E tem gente que critica isso. Deixa o povo soltar o verbo!”, brada, com o bom humor característico. Andréa del Fuego (www.delfuego.zip.net) provoca: “Então quer dizer que todo mundo pode ser um escritor?”, para em seguida responder: “sim!”, tão empolgada quanto Marcelino. A escritora, que começou no impresso e englobou o on-line em 2005, conta que uma das grandes vantagens do blog é a interação com os leitores, que, por meio dos comentários postados, transformam- se em críticos.

Apesar de a maioria dos jovens escritores terem uma página na web, muito pouco do que é publicado na rede vai para o impresso.
A internet é usada mais como uma forma de exercício literário e uma ferramenta (incrível) para a divulgação do trabalho. Para o
poeta Fabrício Carpinejar (www.fabriciocarpinejar.blog - ger.com.br), o blog lhe “possibilitou o exercício da crônica e a crônica o levou à ampliação da poesia”, diz na prosa-poética que permeia todas as suas falas. A ideia de que a internet acabará com os livros torna-se cada vez mais um mito. Xico Sá (www.carapuceiro.zip.net), por exemplo, viu seu penúltimo livro, “Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias” (Editora do Bispo) quintuplicar as vendas depois de ser disponibillizado para download. “A primeira tiragem foi de 2 mil exemplares”, conta. “Quando esgotou, decidi liberar o livro para ser baixado pela internet. Isso fez com que começasse a vender cada vez mais nas livrarias, chegando a 10 mil exemplares vendidos”.

A explicação é simples: os leitores baixam um livro ou leem trechos das obras nos blogs e sites. Quando gostam, correm para
comprar a versão impressa. “Com a internet podemos ter uma prévia de tudo, antes de consumir”, resume a escritora Ana Paulo
Maia (www.killing-travis.blogspot.com), que fará sua estreia em uma grande editora (Record), com o livro “Entre rinhas de cachorros
e porcos abatidos”, que teve os primeiros capítulos publicados inicialmente na internet.

Indo além do embate “livros X internet”, Danilo Corci e Ricardo Giassetti criaram a Mojo Books (www.mojobooks.com.br) em dezembro de 2006, uma editora 100% digital. Com a proposta “se música fosse literatura, que história contaria?”, os autores são convidados a desenvolver uma trama inspirada em discos ou canções. Todo o material está disponível gratuitamente no site.

Nesses dois anos e meio, foram 107 livros publicados e 300 mil downloads. O campeão de “vendas”, com 80 mil cópias, é o livro
baseado no CD Anacrônico, da cantora Pitty, escrito por Carla Mendes. Quem quiser baixar a obra, entretanto, terá que esperar
uma segunda “tiragem”, já que todas as publicações têm um número limitado de downloads.

Na contracorrente do que pregam gravadoras de música e editoras tradicionais, Corci explica que essa tiragem serve justamente
para estimular a interação e a troca de arquivos entre os leitores da Mojo. Quem quiser, também pode mandar projetos de livros,
que serão analisados pelos editores.

Por mês, chegam à editora mais de 40 propostas. “As pessoas dizem que os jovens não leem e não escrevem, mas a nossa experiência indica justamente o contrário”, conta Corci, que já recebeu projetos de autores de 12 anos. Os livros da Mojo têm no máximo 20 mil caracteres, o que leva pouco mais de meia hora para ser lido. O próximo projeto da editora são as publicações para celular, que terão formato ainda menor.

De acordo com a experiência de Corcci, a destruição da língua portuguesa pelo uso da internet (com suas abreviações, apropriações
e novos significados) é lenda. “Recebemos textos com erros gramaticais, mas que refletem apenas a decadência da educação no
Brasil. Nos projetos que chegam até nós há, ao contrário do que se imagina, a busca até exagerada pela forma culta”, conclui.

Mesmo com as infinitas possibilidades da rede, a Mojo continua recebendo “historinhas quadradas”. A mais ousada, enviada
por Juliana Fees, começa no texto disponibilizado pela editora e termina em um blog, no qual está publicada uma carta de suicídio.
“Ninguém arrisca muito”, observa Corci. “Tentamos estimular o uso dos diferentes meios, mesclando o twitter, blog, facebook,
orkut, myspace como parte da narrativa, fazendo com que a história circule pelos diferentes suportes da rede, mas ainda não
aconteceu”. No livro “Roteiro para Novas Mídias” (Editora Senac), o professor Vicente Gosciola conta algumas dessas experiências de convergência de mídias que aconteceram — ainda de forma bastante tímida — no Brasil, principalmente com o vídeo.

Quem visita a “Blooks”, sai da exposição com a certeza de que a literatura ainda está muito longe do seu fim. “Assim como o CD, o
MP3, o vinil, são suportes, não são a música, o blog, o livro, ou o celular são suportes, não a literatura”, observa Andrea del Fuego.
Os muito incrédulos podem ficar tranquilos. Tudo indica que a internet, em vez fazer com que os livros acabassem, terminou por
multiplicá-los.

Blooks — Tribos e Letras na Rede
Sesc Pinheiros, Rua Paes Leme,
195, tel.: 3095-9400. Terça a sexta,
13h/21h30; sábado e domingo,
10h30/18h30. Grátis. Até 28 de junho.
Programação completa dos
debates e oficinas no si

Cadastrada em: 18/05/2009
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